Acessibilidade na prática: checklist para devs que não são especialistas
Introdução
A acessibilidade é um tema cada vez mais relevante no desenvolvimento de software, pois torna os sistemas e aplicações disponíveis para pessoas com deficiências ou necessidades especiais. Com a lei 13.146/2015 que estabelece normas técnicas para acessibilidade das pessoas com deficiência no âmbito da administração pública federal, estadual e municipal, distrital e do território, bem como dos seus instrumentos e condições de acesso, torna-se obrigatório incorporar requisitos de acessibilidade em projetos.
No entanto, muitas vezes, os desenvolvedores ainda não sabem onde começar. Essa falta de conhecimento pode levar a uma implementação parcial ou até mesmo inexistente dos requisitos necessários, resultando em sistemas que não atendam às demandas de acessibilidade.
Neste artigo, vamos explorar as principais funcionalidades e requisitos para garantir a acessibilidade dos aplicativos e sistemas desenvolvidos. Vamos fornecer uma checklist com os principais pontos a serem considerados pelos desenvolvedores que não são especialistas em acessibilidade, mas desejam implementá-la corretamente no seu trabalho.
O que é e por que importa
A acessibilidade refere-se à capacidade de um sistema ou aplicativo ser utilizado por pessoas com deficiências ou necessidades especiais, garantindo que possam realizar as mesmas tarefas que os usuários sem deficiência. Ela envolve a criação de soluções que permitam que essas pessoas interajam de forma eficaz e segura com o sistema.
A acessibilidade é importante porque permite que mais pessoas utilizem os sistemas e aplicativos, incluindo:
- Pessoas com deficiência visual ou auditiva
- Pessoas com deficiência motora ou cognitiva
- Idosos com dificuldade de interação
- Pessoas com necessidades especiais
A falta de acessibilidade pode levar a problemas como:
- Barreiras de uso: o sistema é difícil de usar para as pessoas com deficiência, levando a frustração e exclusão.
- Dificuldades de navegação: o sistema não permite que as pessoas com deficiência sejam capazes de navegar corretamente, levando a erros e dificuldade em encontrar informações.
- Problemas de comunicação: o sistema não fornece mecanismos adequados para a comunicação entre usuários e sistemas, levando a problemas de entendimento.
A acessibilidade é necessária porque é uma obrigação legal, como determinado pela lei 13.146/2015, além disso, é um direito dos usuários ter acesso igualitário aos sistemas e aplicativos.
Como funciona na prática
A acessibilidade é implementada no desenvolvimento de sistemas e aplicativos através de várias etapas:
Planejamento
- Identificar os requisitos de acessibilidade do projeto, considerando as normas e legislações aplicáveis.
- Definir os recursos necessários para atender às necessidades de usuários com deficiência ou necessidades especiais.
Design
- Utilizar padrões de design acessível, como contraste adequado entre texto e fundo, e espaçamento suficiente entre elementos.
- Evitar a utilização excessiva de imagens em vez de textos e garantir que os elementos visuais sejam desativados para usuários com deficiência visual.
Implementação
- Utilizar tecnologias acessíveis como HTML5, CSS3 e ARIA (Accessible Rich Internet Applications) para criar interfaces de usuário acessíveis.
- Inserir etiquetas de acessibilidade em todos os elementos da página, garantindo que os leitores de tela possam interpretá-los corretamente.
Testes
- Realizar testes de acessibilidade, incluindo a utilização de ferramentas como screen readers e simulações de deficiência visual ou auditiva.
- Coletar feedback dos usuários com deficiência para melhorar o sistema ou aplicativo.
Manutenção
- Garantir que as atualizações e melhorias do sistema ou aplicativo não comprometam a acessibilidade já implementada.
- Manter os requisitos de acessibilidade atualizados, considerando novas normas e legislações.
Exemplo real
Um exemplo prático de implementação de acessibilidade é o uso de tecnologias como ARIA para criar interfaces de usuário acessíveis. Aqui está um exemplo de código em JavaScript que utiliza ARIA para tornar uma tabela acessível:
// Tabela com informações sobre produtos
<table aria-label="Produtos" role="presentation">
<caption>Produtos</caption>
<thead>
<tr>
<th scope="col">Nome</th>
<th scope="col">Preço</th>
<th scope="col">Descrição</th>
</tr>
</thead>
<tbody>
<tr>
<td>Produto 1</td>
<td>10,99</td>
<td>Este é um produto bem legal.</td>
</tr>
<tr>
<td>Produto 2</td>
<td>5,99</td>
<td>Outro produto interessante.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
// Script que adiciona eventos de acessibilidade à tabela
document.querySelector('table[aria-label="Produtos"]').addEventListener('keydown', function(event) {
// Implementação do evento de acessibilidade aqui...
});
Nesse exemplo, a tabela é marcada com o atributo aria-label e recebeu um papel de apresentação (role="presentation"). O script adiciona eventos para lidar com a interação da pessoa com deficiência.
Boas práticas
- Teste de acessibilidade contínuo: Faça parte da sua rotina, seja regularmente ou antes de lançar qualquer atualização.
- Use ferramentas de validação: Utilize ferramentas de validação como WAVE ou Lighthouse para ajudar a identificar problemas com facilidade e rapidez.
- Desenvolva conhecimento sobre WCAG 2.1: Aprenda a interpretá-las para garantir que suas soluções estejam em conformidade.
Armadilhas comuns
- Priorizar visibilidade: Embora importante, priorizar somente a visibilidade pode levar a problemas de acessibilidade, pois pessoas com deficiência visual podem ainda estar utilizando leitores de tela.
- Foco excessivo na tecnologia: Concentrar-se demais em usar as novas tecnologias como ARIA sem considerar os requisitos de acessibilidade e os usuários pode ser prejudicial.
Conclusão
Ao criar soluções acessíveis, é fundamental considerar a experiência do usuário. Implementando práticas de acessibilidade contínua e usando ferramentas de validação, podemos evitar armadilhas comuns como priorizar apenas a visibilidade ou focar excessivamente na tecnologia.
Para aprofundar o conhecimento sobre WCAG 2.1 e suas aplicações, é recomendável consultar recursos oficiais da W3C e participar de grupos de discussão online. Além disso, é crucial manter-se atualizado com as mudanças nas diretrizes de acessibilidade para garantir a conformidade em projetos futuros.
Ao incorporar práticas de acessibilidade na rotina diária, os desenvolvedores podem criar soluções mais inclusivas e intuitivas, contribuindo para uma experiência online mais igualitária.
Referências
- W3C. Web Content Accessibility Guidelines (WCAG 2.1). Disponível em: https://www.w3.org/TR/WCAG21/. Acesso: 2024.
- MDN Web Docs. Accessibility. Disponível em: https://developer.mozilla.org/en-US/docs/Web/Accessibility. Acesso: 2024.
- Martin Fowler. Patterns of Enterprise Application Architecture. Addison-Wesley Professional, 2002.
- Thoughtworks.com. How to make your website accessible for people with disabilities. Disponível em: https://www.thoughtworks.com/en/blog/making-your-website-accessible. Acesso: 2024.
- OWASP. Accessibility Cheat Sheet. Disponível em: https://cheatsheetseries.owasp.org/cheatsheets/Web_Application_Media_Security_Cheat_Sheet.html#accessibility-checklist. Acesso: 2024.